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Milo Araújo

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Pensa e pedala comigo

Milo Araújo

01/10/2019 08h00

Abrimos esta coluna com muita empolgação, moçada. Mas primeiro quero explicar como cheguei aqui. Não quero me referenciar apenas pela minha origem, acredite. Mas acontece que nosso berço diz muito sobre a trajetória que se debruça sobre nós.

Sou nascida e criada no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo. Antes da celebrada (e recente) baldeação da Linha Lilás com a Linha Verde, chegar do Capão na Paulista exigia uma viagem de busão, metrô e trem. No mínimo umas duas horinhas pra ir, mais duas pra voltar, sem contar possíveis atrasos.

Assim que criei alguma independência financeira, me juntei a algumas amizades e fui morar num bairro mais central, certa de que isso me ajudaria (e ajudou! acesso é tudo!) a desenvolver diferentes trabalhos e a criar relações. Foi um ganho de tempo que trouxe muita transformação para a minha vida.

Mas uma coisa me intrigava: mesmo com a mudança e as horinhas a mais, eu ainda me sentia presa. Louco como, em São Paulo, a viagem de um bairro para um bairro vizinho pode levar tempos completamente desproporcionais. Não estamos falando apenas de percorrer grandes distâncias. Na Grande Babilônia tudo demora.

Eu ficava parada dentro do busão na Faria Lima pensando "Olha lá essa galerona de bike. Já pensou não ficar parada nesse maldita fila de ônibus?". E ocasionalmente comecei a alugar aquelas bikes laranjinhas só pra andar no reto — afinal, não sou atleta! Só de pensar numa ladeira já dá até uma palpitação aqui!

Mas a cada rolê o vento no cabelo me pegava mais. Até que um dia eu cheguei à conclusão de que uma bicicleta elétrica iria resolver minha vida.

Calma aí no julgamento! Antes de emitir opinião, chegue mais perto e tenha empatia. Eu nunca havia usado o meu corpo para nada mais do básico. Sabe aquela sensação de impotência que o capitalismo joga em cima de toda pessoa que nasce embaixo do manto dele? De que sem a ferramenta que ele pode nos proporcionar, e que custa caro, não somos nada? Pois é, amizades, eu tava nessa. Mas tudo bem. Afinal, a bike elétrica foi a porta de entrada para drogas mais fortes. Eu fui lá, parcelei em muitas vezes e me joguei nas ciclos e nas ladeiras toda motorizada. Por enquanto, bastava.

Um dia, acompanhando os stories de um boyzinho, descobri um grupo de pessoas pretas que se juntam para pedalar chamado Giro Preto. Pensei ser apenas um singelo passeio de bike (e é isso, só que também é muito mais) e enviei uma mensagem perguntando se bicicletas elétricas eram bem aceitas. A resposta foi positiva e resolvi colar.

Ao fim do meu primeiro rolê de bicicleta fora das demarcações das ciclofaixas, várias questões que eu não entendia foram respondidas na minha cabeça. A mais surpreendente foi também a mais óbvia: o coletivo te ajuda a superar obstáculos REAIS.

Com o passar dos encontros eu fui criando vínculos com esta forma tão inteligente e ágil de me locomover e também fui me relacionando com as pessoas que se envolvem e investem na bike como estilo de vida. Com o estímulo do grupo, vendi minha elétrica e troquei por um outro tipo de bicicleta, mais simples e sem marchas. Uma bicicleta que só depende de mim pra circular. Que responsabilidade!

A cada ladeira vista do topo, eu me sinto mais próxima da verdadeira autonomia. A cada quilometragem alcançada, dou um sorriso.

Sabe a mulher que tinha medo de ladeiras? Ela agora está escolhendo seu novo medo para ser superado. Acima de nós, só a Beyoncé e a roda da frente.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.

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