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Pedalar é essencialmente um exercício anti-autoritário

ECOA

11/11/2019 04h00

Eu nunca entendi direito o porque as pessoas eram tão fascinadas por esportes. Durante a adolescência eu nunca fui uma grande fã de educação física. Me lembro como se fosse hoje que na escola que eu estudava tinha duas quadras, uma grande e uma pequena. O professor separava a turma entre meninos e meninas. Vocês conseguem adivinhar qual destes grupos ficavam com a quadra pequena? Exatamente! As meninas. O professor, que não conseguia se dividir em dois, dava preferência para a formação dos meninos, obviamente. A nós, restava uma bola solta sem instruções. Todas as meninas corriam ao mesmo tempo em cima da bola e as cotoveladas comiam soltas. Admito que criei uma grande aversão a esportes desde então. Sempre esquecia de propósito a roupa de educação física para ser dispensada e poder me livrar desta situação. 

Quando superei um pouco minha aversão à prática de esportes e comecei a pedalar, percebi que o encanto vem das relações que você cria por conta dos jogos de comunidade inseridos dentro das dinâmicas do esporte. Nossa sociedade se encontra num momento de isolamento tão brutal que a necessidade de comunicação interpessoal que é exigida ao se envolver num esporte em grupo é realmente muito sedutora. Somos carentes, e quando estamos na rua, pedalando em conjunto, a prioridade é cuidarmos uns dos outros. Este é um processo que cria laços fortes, se você permitir que esses laços sejam criados. 

Hoje eu escrevo esse texto com um aperto no coração. Dentro do nosso atual contexto político, o que eu mais acho que faz sentido é que, dentro de qualquer organização que estivermos inseridos, precisamos necessariamente exercer o espírito democrático. A democracia é mais lenta, cheia de obstáculos e processinhos. Essa é a dor de cabeça que precisamos ter enquanto seres dispostos a multiplicar as vias democráticas por aí. Não é um caminho fácil, mas é o caminho necessário. 

No dia de hoje, eu rompi com um grupo de bicicleta do qual eu era muito próxima, e isso mexeu comigo. Acho muito louco como colocamos individualmente bandeiras anti autoritárias sobre nós e só o que sabemos reproduzir são estruturas hierarquizadas. Eu vi um grupo romper ao meio por coisas tão banais. Não sabíamos a diferença entre briga e debate, entre vontade individual e vontade coletiva, entre ganho pessoal e ganho comum. Até antes disse, observei pessoas colocando que processos horizontais só podiam resultar numa bagunça generalizada, sem nem ao menos tentar. Hoje eu consigo entender melhor como as democracias caem. Elas são muito complexas. Quando não se está na disposição, elas sempre serão boicotadas pelas figuras não dispostas e pelos seus líderes autoritários. 

Hoje vou dormir com uma desesperança pairando sobre mim. Um misto de ansiedade e impotência. Mas acredito que amanhã o dia vai amanhecer ensolarado. Um belo dia para se dar uma pedalada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.

Milo Araújo