PUBLICIDADE
Topo

Rio Pinheiros e a velha política da cegueira

ECOA

16/12/2019 04h00

Aqui em São Paulo temos uma ciclovia muito querida e icônica. Às margens do Rio Pinheiros, ela se estende ao longo de 21,5 km sem grandes ladeiras. Quando você estiver mais distraído, dará de cara com uma família de capivaras. Mas não se assuste! Elas não fazem nada, só ficam observando as bicicletas passando de um lado para o outro. Inclusive, muitas pessoas acabaram carinhosamente apelidando a ciclovia de "Capivara". Eu poderia passar muito tempo aqui exaltando seus inúmeros pontos positivos, porém, uma questão sempre vem à mente do ciclista ao passar pela Capivara: o próprio Rio Pinheiros.

Ele acompanha a ciclovia em toda sua extensão e não nos deixa esquecer que nutrimos um gigantesco esgoto a céu aberto. Às vezes a gente até para pra pensar: em algum momento da história esse Rio já foi muito bonito. Até hoje existe um resquício dessa beleza naquela superfície turva. A bicicleta tem dessas coisas de fazer com que a gente preste atenção no caminho. Levando em consideração toda a movimentação deste ano ao redor da temática ambientalista, me parece que o paulistano fecha os olhos (e o nariz) para o velho Pinheiros.

É muito maluco pensar que suas margens já foram tomadas por uma vasta vegetação de Mata Atlântica. No início da urbanização de São Paulo, quando a cidade começou a se formar ao longo do Rio, suas águas foram muito usadas em indústrias metalúrgicas e químicas que se espalharam ao seu redor — isso lá por volta das décadas de 1950, 1960.

Sabemos que São Paulo cresceu sem planejamento algum, como a maioria das grandes metrópoles. Ou seja, não rolava aquele pensamento de despejo consciente de esgoto. Tudo era jogado nos muitos afluentes do Rio, levando toda a sujeira de uma cidade inteira, e que nunca parou de crescer, diretamente para as águas do Pinheiros.

Dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) apontam que 290 indústrias e cerca de 400 mil famílias ainda usam o Rio para descarte de dejetos.

Diversas promessas vindas da classe política já foram professadas aos quatro ventos — especialmente durante as eleições — sobre a limpeza do Rio Pinheiros. Muito dinheiro já foi investido, mas sem resultados. Nunca rolou um comprometimento efetivo com a causa. Será que se os governantes pedalassem pela Capivara, iriam se comover? Não sei. Só estou jogando a possibilidade aí, afinal de contas, a perspectiva do fim do mundo nunca esteve tão próxima.

Nunca foi tão importante apoiar a luta da juventude pelo meio ambiente. Existem várias Gretas pelo mundo e os velhos brancos no poder vão ter que ceder. Enquanto travamos esta disputa, não podemos esquecer do Rio Pinheiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.