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Ciclocidade: as contradições de uma militância

ECOA

23/12/2019 14h33

Você sente que, quanto mais próximo das políticas institucionalizadas, mais vazio de significado vai se tornando um discurso, uma ideia? Muitas vezes eu sinto isso. Passei por uma situação tão estranha recentemente que essa questão explodiu na minha cara como uma bomba e eu vou abrir meu coração pra vocês.

Esses dias recebi uma mensagem de uma conhecida de longa data para fazer uma fala em um evento da Ciclocidade. Deixe-me situar vocês. A Ciclocidade é a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo e tem algumas ações neste território de atuação. Fiquei feliz com o convite. Porém, por motivos de gostar muito de dormir até tarde no domingo, perguntei pra minha amiga Ana, da empresa e negócio social A Visionária, se ela gostaria de ir no meu lugar, pois o evento tinha uma ajuda de custo de 300 reais que seria muito bom se distribuíssem entre os nossos. Como Ana não tinha agenda para tal evento, resolvi aceitar.

O breve briefing que me foi passado: você vai falar sobre estratégias de comunicação na mobilidade.

Fique aliviada! Esse assunto estava no papo! Apesar da vergonha em falar em público, falar sobre um assunto que você domina deixa tudo muito mais fácil, não é mesmo? Várias credenciais que adquiri na minha caminhada me confortaram neste momento, como a graduação em Publicidade, a graduação em Letras, as atuações com designer no longa metragem Visionários da Quebrada, escrever esta coluna aqui na UOL semanalmente sobre mobilidade e acesso à cidade e mesmo meu trabalho diário criando conteúdo para o site Buzzfeed Brasil. Poxa vida, finalmente eu me sinto com propriedade para falar de algum assunto. Uma mulher preta bem instrumentalizada para canalizar a luta pelo direito de ir e vir com dignidade! Pois bem.

Agora chegamos na reviravolta da nossa história. Eis que recebo uma mensagem da nossa mensageira da Ciclocidade me avisando que sofri um processo de desconvidamento. Muito intrigada, pergunto o motivo e recebo a resposta: um componente da comissão afirma que sua prática diverge do seu discurso.

O choque me tomou. Para além de estar profundamente ofendida, pois eu sou uma pessoa que toma especial cuidado pra não ser uma rouba brisa de movimentos sociais, também pairou sobre mim a preocupação de estar sendo difamada. Pensei um pouquinho, fiz algumas perguntas à mensageira e descobri a figura epicentro dessa deplorável situação: uma moça que não convém abrir o nome aqui, mas que sabemos que tomou algumas decisões bastante controversas e questionáveis relacionadas à falas remuneradas e coletivo preto de bicicleta não consultados. Na época desses incidentes eu fui uma crítica contundente destas condutas antiéticas. Imagino que bateu um misto de vingança, síndrome do pequeno poder e confusões de espelhamento de defeitos na moça. Acontece.

Mas acho que o ponto mais problemático dessa situação toda é o e-mail bizarro que recebi da Diretora Geral da Ciclocidade. Achei a intenção do e-mail confusa, pois não sabemos se ali tem uma tentativa de manipulação emocional, passação de pano ou pedido de desculpas. Talvez seja tudo isso junto, não é mesmo? Neste e-mail temos frases como "O que precisamos exige além do que neste momento sua expertise e atuação estão inseridas" até "De mulher Preta pra mulher Preta". ENFIM. Respondi questionando a imparcialidade de tudo isso e reafirmando a mentira na qual toda esta história que contei está envolvida.

Em retorno recebi um estrondoso silêncio. Considero o ápice da desonestidade e desrespeito. Uma instituição que se propõe a dialogar e construir coletivamente agindo de forma tão vil. O que nos faz voltar ao início do texto. Será que estamos fadados a ver silenciados se tornarem silenciadores ao menor acesso às vias de poder? Será que colocaremos na cesta da normalidade a chantagem emocional "de mulher preta para mulher preta"? Sinceramente, eu sou do tipo que vê o copo cheio e acredito no método "dialogar até cair" e acho que não podemos desistir umas das outras. Uma coisa eu tiro de aprendizagem de tudo isso e aproveito para citar Racionais MC: Um brinde pros guerreiros, Zé povinho, eu lamento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.