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Quantos assédios um dia de verão te rende?

ECOA

20/01/2020 08h22

Já estamos sentindo as ondas de calor. O verão de 2020 chegou com tudo! Estamos vivendo aquelas noites que parecem dias e aqueles dias em que passar em frente a uma loja com ar-condicionado é um bálsamo.

Acordei hoje com o suor colando na testa, refletindo o quão difícil para o meu corpo seria pedalar até o trabalho nesse dia. Mas como estou bem focada em manter hábitos saudáveis e desenvolver uns novos, me convenci a enfrentar a sauna que está sendo o mundo e em cima de duas rodas.

Na hora de escolher a roupa, aquele peso do impacto do seu corpo no mundo. Um calor desgraçado me fez escolher um shorts, uma blusinha cropped, uma meia e um tênis. Cabelo preso no alto pra ajudar na ventilação e na visão. Bolsa na cintura e resiliência na alma.

Na terceira curva eu percebi que aqueles míseros 5 km seriam uma grande jornada — e erra você que pensa que estou falando do calor do verão. O desconforto do calor não faz nem cócegas perto da sensação que o assédio masculino causa. Claro, somos assediadas em todas as estações do ano. Contudo, o verão traz consigo uma maior exposição do nosso corpo, e sabemos que o corpo das mulheres não é encarado com naturalidade. Em todas as situações ele carrega um estigma: a mãe, a santa, a puta, a carne barata, a velha. Nunca humana.

O primeiro assédio veio no semáforo. O farol ficou vermelho e, ao parar a bicicleta para esperar meu momento de prosseguir, fui intimidada pelos olhares dos motociclistas em direção a minha pele à mostra. Todos eles estavam olhando pra mim e todos sabiam que os outros estavam olhando, mas nada disso foi uma questão para eles.

No momento do assédio, os homens entram numa perfeita comunhão. Eles se sentem seguros dentro desta "casa dos homens".

Para meu alívio, o farol abriu e eu acreditei ter sido aquela uma situação isolada no início do meu dia. Na próxima esquina, um caminhão de pequeno porte emparelha comigo. Os dois homens dentro da cabine se revezam para gritar atrocidades pra mim. O fato dos outros usuários da via estarem presenciando aquele triste espetáculo não os intimidou. Mas graças à dinâmica do trânsito, eu deixei o caminhão para trás. Dei prosseguimento ao meu caminho.

Estou agora pedalando em direção à ponte Eusébio Matoso. Escolho ir pela parte dos pedestres, por ter pouco movimento e pra me sentir mais segura, pois os motoristas, não sei exatamente o porquê, se comportam de forma bárbara nas pontes. E mesmo nesse breve momento de distanciamento do trânsito intenso, uma quantidade gigantesca de carros buzinaram pra mim, e a sensação é horrível. Além de buzinas terem o poder de desestabilizar o ciclista, saber o motivo vil por trás desse irritante barulho faz tudo ficar pior.

Enfim cheguei ao meu trabalho. Um pouco desestabilizada diante do enorme desrespeito direcionado às mulheres. Já é difícil ser ciclista, mas o recorte de gênero é muito necessário, pois as violências que sofremos apenas por sermos mulheres são parte de uma experiência muito específica e comum. O assédio faz parte da vida das mulheres e isso não está certo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.