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Repita o mantra: eu sou o trânsito

ECOA

10/02/2020 04h00

Quando eu era mais novinha, lá pelos 18 anos, passei por um episódio que rapidamente entendi ser muito comum por aqui por São Paulo. Eu morava no Capão Redondo e precisava me locomover até a Avenida Paulista. Precisava estar lá às 9h da manhã. Acordei cedo, me arrumei, peguei o carro e engatei a primeira marcha entre 7h e 7h20. Em tese, o caminho é muito simples, sem grandes curvas e desvios. Eu cheguei meio dia. E o leitor pode trazer o contraponto de que provavelmente deveria ter ocorrido algum acidente naquele dia. Mas naquela época eu estava sempre sintonizada numa rádio que monitorava o trânsito, e não tinha acontecido nada de extraordinário. Apenas muitas pessoas – e eu incluída nessa galera – tínhamos tido a genial ideia de tirar os carros da garagem em massa. 

Eu me lembro dos sintomas de loucura que tive durante este trajeto. Eu estava morta de impaciência, ansiedade, raiva, etc. Pé na embreagem, pé no freio, pé na embreagem, pé no acelerador, pé no freio. Calor. Buzinas. Ultrapassagens absurdas de geral. Um espacinho livre parecia o último copo de água no deserto para nós, sedentos motoristas. Os minutos passando e eu ficando levemente atrasada, depois discrepantemente atrasada. Todo mundo se olhando feio. Nossa socialização mega individualista nos apontava para uma única conclusão ali naquela situação: o inferno são os outros. Eu, na minha débil atitude julgadora, olhava para as pessoas que estavam sozinhas em seus carros, assim como eu, e pensava que, ao menos, eu estava fazendo isso uma vez só, e tem gente que faz isso todos os dias. Não me coloquei como parte do problema na época, mas agora vejo que sim, obviamente eu fiz parte da composição daquele quadro. Cada carro na rua é parte da grande estrutura engessada e enrolada num nó que não desata chamado trânsito de São Paulo. 

Não estou falando para todas e todos nunca mais entrarem em seus carros. Não é isso. Só digo que não podemos ser tão dependentes e devemos criar trajetos mistos sempre que possível. Por exemplo: você pode ir de carro até uma estação de metrô próxima e seguir seu caminho de lá. Pode também oferecer carona para suas vizinhas e vizinhos. Pode fazer metade de trem, metade de bike alugada. O mundo da mobilidade urbana é de infinitas possibilidades. E, independente de como você esteja atravessando a cidade, se lembre: o trânsito somos nós, não os outros.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.

Milo Araújo