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Meu carro, minha rua

ECOA

02/03/2020 04h00

A gente tem falado tanto sobre os encontros, conflitos e afetos que ocorrem na cidade, que me parece que entender o que é a cidade é um ponto crucial. A gente está tão inserido no cotidiano urbano que raramente nos perguntamos: mas o que é a cidade?

Para Jane Jacobs, grande jornalista americana e crítica voraz da proposta urbanística do modernismo, "a rua (e por conseguinte, a cidade) é uma autêntica e complexa instituição social onde desde crianças aprendemos a socializar e construir comunidade. Se a rua acaba por privilegiar o automóvel por sobre o pedestre, ela morre e inicia-se o fim da cidade."

Pois bem, vemos então que cidade está intimamente ligada ao conceito de cidadão (o habitante dela). E veja, cidadão é diferente de cliente, como uns e outros insistem em mesclar. A cidade está aqui para que possamos trocar entre nós e crescermos das mais diversas formas a partir dessas trocas. Para que isto aconteça, é importante que tenhamos um ambiente de troca saudável. 

Mas Milo, o que configura um ambiente de trocas saudável? Pra mim, este lugar seria uma cidade na qual todas as pessoas que a habitam tivessem acesso a todos os aparatos culturais e de lazer, diversos ambientes voltados ao desenvolvimento de suas intelectualidades e também ao autocuidado e saúde. Estes citados estariam descentralizados e todas e todos teriam fácil acesso. Consegue imaginar? Sei que é difícil. Mas, poxa vida, por que pensar em uma proposta urbanística tão boa para todas e todos, focada no coletivo, parece um delírio futurista? 

O negócio é o seguinte: quando cidadania se confunde com consumo, as coisas começam a ficar esquisitas. Saúde, educação, lazer e acesso à cidade se tornam mercadorias, quando deviam ser largamente defendidos como direitos fundamentais. Se pensarmos que a cidade é todo o espaço onde o cidadão consegue existir sem pagar, nossa cidade se reduz cada dia mais. É muito doido conceber shoppings, bares e afins como os únicos lugares de socialização, levando em consideração a exclusão social na qual estamos afundados, muito por conta também deste movimento de rentabilizar os espaços antes públicos.

Tendo tudo isto em mente, até faz sentido o comportamento egoísta da classe dos motoristas dentro da dinâmica das trocas na cidade. Nesta conjuntura, se eu tenho dinheiro e compro um carro, usar este meu bem privado de alto custo na via faz dela uma extensão dele e, portanto, a via se torna privada também, colocando os pedestres e ciclistas quase que num lugar de clandestinidade. Entendem onde eu quero chegar? Estou tentando mostrar apenas o topo do iceberg que é o problema do urbanismo nas grandes cidades, não só do Brasil, mas no mundo todo. Vamos tirar esse véu de invisibilidade que insistimos em colocar sobre esta questão tão fundamental para a nossa existência no mundo? Eu proponho essa reflexão de forma sincera.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.