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Olhar para mobilidade urbana é ser anti sofrimento

ECOA

09/03/2020 04h00

Nossa vida em comunidade é baseada em afetos. Afeto no sentido puro do seu significado, de quando você afeta ou é afetado por algo. Nos afetamos enquanto pessoas e também somos afetados por ideias, que quando penetram fundo na gente, se tornam convicções. Eu, por exemplo, acredito genuinamente no poder de transformação social que tem no pensar ativo sobre mobilidade urbana, sobre como você atravessa a cidade, seja lá como for. Eu falo sobre isso sempre que as pessoas me dão uma brecha. E eu não perco as oportunidades de espalhar a palavra da mobilidade urbana porque eu realmente acredito que este é um campo que quando bem cuidado, mudará muitas vidas. Mudou a minha. 

Eu sou uma menina do Capão Redondo que sempre sofreu muito com a ideia de que onde eu nasci era "longe", como todos colocavam, e pronto. Isso trazia uma impotência, um sentimento de que eu jamais poderia ser e viver outras coisas por conta de estar "longe de tudo". Isso para vocês entenderem o porque do meu apego a este tema. Existe paixão em mim. Portanto, quando eu falo sobre, as pessoas se sentem afetadas. Algumas de forma positiva, outras nem tanto. Até porque, sabemos que quando apontamos falta de direitos (no caso, o de ir e vir com dignidade) acabamos também por apontar privilégios. Para a Milo criança, sempre foi muito emocionante ser levada para passear na Avenida Paulista. 

Quando comecei a ficar mais adolescente, meu pai me levou para conhecer a enorme livraria que tem ali no Conjunto Nacional. Eu absolutamente pirei. Eu sempre curti ler, então fiquei bastante impressionada com aquela imensa biblioteca. Depois andamos mais alguns quarteirões para cima ou para baixo ao longo da avenida, e eu avistei alguns cinemas e várias outras coisas que achei muito legal. Contudo, me lembro também de que toda aquela empolgação era acompanhada de uma melancolia também. Aquilo tudo era tão longe da realidade do bairro no qual eu vivia que até parecia um conto de fadas triste. Mesmo tão jovem, me comparei com os adolescentes que viviam por ali, e senti raiva, inveja. Por quê eu tinha que atravessar a cidade para ter contato com todas aquelas coisas lindas? Não era justo. Hoje sei que não é justo mesmo, mas no momento, só foi uma sensação horrorosa. 

Conforme fui crescendo, os grandes deslocamentos só aumentavam. Minha mãe me matriculou numa escola pública no bairro do Brooklin, perto do Campo Belo, por conta da violência que tomava conta das escolas do Capão Redondo, e lá ia eu, acordar de madrugada durantes os três anos do Ensino Médio para não ser barrada por conta de atraso na porta da escola. Depois, ficar de olho no relógio durante a última aula da faculdade, por que se perdesse o ônibus no centro, não chegava a tempo de pegar o outro ônibus lá no Terminal Campo Limpo. O negócio era louco. Adrenalina a mil. 

Essa rotina que já foi a minha é parecida com a rotina de um número sem fim de paulistanos. Outras são mais puxadas ainda. 

E pensar que tudo poderia ser menos penoso se a gente tivesse um olhar mais carinhoso para os planos de mobilidade. Você já viu algum candidato a cargos políticos colocando esta pauta com a relevância que lhe é devida? É de crucial importância uma gestão que pense a cidade num caminho de descentralização e de valorização dos transportes públicos. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a Autora

Milo Araújo é designer e diretora de arte, pedaleira, caminhadeira e agora escrevedeira. Aprendeu a andar de bike sem as mãos recentemente.

Sobre o Blog

O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Aqui se fala sobre formas de transitar, ocupar e viver as cidades.