Milo Araújo http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br O pedal da Milo entra em ação, de olho na mobilidade urbana. Mon, 13 Jan 2020 10:43:38 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Os benefícios de andar de bicicleta para o corpo http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/13/os-beneficios-de-andar-de-bicicleta-para-o-corpo/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/13/os-beneficios-de-andar-de-bicicleta-para-o-corpo/#respond Mon, 13 Jan 2020 10:43:38 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=84 Andar de bike é uma paixão daquelas raras: que só traz coisas boas para a vida, sem poréns ou concessões. Se você se apaixonar por uma bike a agarre e não largue mais!

Além de ser agradável e divertido andar pela cidade em cima deste charme de duas rodas, você diminui a poluição do planeta e ajuda seu corpo a se tornar mais e mais e mais saudável.

Quando se pedala, você movimenta todo seu corpo, físico e mental. Dentre os inúmeros benefícios que o exercício da bicicleta traz ao corpo humano, separei sete para falar com vocês hoje.

Energia vital
Pedalar ajuda a deixar seu cérebro mais bem oxigenado e, com o suor do exercício, elimina toxinas do corpo com mais facilidade. E isso é uma grande coisa! Um cérebro saudável e um organismo livre de toxinas te garantem bem-estar e energia de vida para realizar todas as tarefas e compromissos do seu dia sem recair em lugares sombrios como o estresse.

Adrenalina no corpo
A prática do ciclismo deixa seu corpo com a sensação de ter levado um choque de adrenalina. É como se você tivesse vivido algo muito intenso que te garante aquele sorriso genuíno, que parece sem quê nem pra quê. É uma mistura de muitas beneficies para o seu corpo, com mente oxigenada, veias e artérias do coração tonificadas, endorfina sendo
liberada; vento no rosto e um estado de alerta para manter o equilíbrio e prestar atenção na sincronia do seu corpo com a bike e em tudo ao seu redor. Ufa! Coisa boa demais!

Pernas mais fortes
Andar de bike te ajuda a melhorar sua força, equilíbrio e coordenação motora. Como é um exercício que demanda mais forças das pernas, elas são as partes físicas mais beneficiadas. Se prepare para ganhar músculos tonificados, fortes e mais resistentes… Inclusive para dançar uma noite inteira e não sentir dor no dia seguinte. Só vantagens.

Mente mais ágil
Se você quer ter sua massa cinzenta brilhando, pedalar é o caminho certo! Pesquisadores do Beckman Institute for Advance Science and Technology da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, descobriram que com apenas 5% de melhoria na saúde cardiorrespiratória por meio do ciclismo, o aumento da capacidade cognitiva foi de 15% em testes mentais. Isso acontece porque, ao pedalar, você ganha novas células cerebrais na parte do hipocampo, que é justamente a área do cérebro responsável pela memória.

Anti ansiedade
Escolher o ciclismo como estilo de vida te ajuda a combater doenças ligadas à nossa saúde mental, como os distúrbios de ansiedade e a depressão. Em uma sociedade caótica, que te pressiona o dia inteiro de diferentes formas, encontrar saídas saudáveis para arejar a mente e liberar endorfina para o seu corpo é um presente que a bike te dá.

Fortalecimento dos pulmões
Como eu já mencionei acima, pedalar exige muito oxigênio! Por isso sua respiração será treinada intensamente – o que irá melhorar as condições dos seus pulmões. Chega de subir uma escada e ficar ofegante. Depois de iniciar a vida como ciclista você terá fôlego e disposição de sobra para fazer muita coisa… Se é que me entende.

Reduz risco de diabetes
A diabetes é uma doença cruel, que muitas vezes se instala no organismo de repente, sem a pessoa se dar conta. E andar de bicicleta é um ótimo aliado para combater a glicemia! Isso acontece porque quando você pedala com frequência o nível de açúcar no sangue é naturalmente equilibrado.

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A tarifa vai subir. E agora? http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/06/a-tarifa-vai-subir-e-agora/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/06/a-tarifa-vai-subir-e-agora/#respond Mon, 06 Jan 2020 07:00:51 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=81 Eu estudei o Ensino Fundamental numa escola bem perto de casa. Por volta de 1 km de distância. Me lembro de ir andando papeando com as amizades da época, pois o trajeto era composto por retas e descidas, e retornava de busão, que na época custava em torno de R$ 1,70 a R$ 2. Acabava não pesando muito no orçamento da minha família e acabei incorporando bem o transporte público a minha rotina.

Quando parti para o Ensino Médio, minha locomoção tomou outra envergadura. Minha mãe queria me afastar das escolas do meu bairro, que apresentavam grandes índices de violência e me matriculou numa escola super longe de casa. Eu acordava às 5h da manhã, no Capão Redondo, para estar sem atrasos às 7h no Brooklin. Este foi um período em que criei maior entendimento sobre a dura dinâmica do transporte periferia-centro. Terminais lotados, longas filas, extensos períodos sacolejando em pé até o nosso destino, estivesse fazendo frio ou calor. E durante esses anos, observei a tarifa subir. Lembro dos desconfortáveis R$ 2,30, os polêmicos R$ 3,20 e os impactantes R$ 4,20. Dou também especial atenção devida a estonteante velocidade que ocorreu este processo. O que me fez pensar que pagar uma quantia de dois dígitos numa passagem de metrô ou busão não me parece um cenário tão distante, porém segue sendo uma idéia absurda.

A micropolítica, nossa ação diária em contato com esse mundo, poderá causar grandes transformações se iniciarmos uma conversa sincera sobre o tema. Os moradores de bairros nobres são menos impactados, então sentam nesse problema. Sabemos que somos uma cidade travada e admitir que não estamos bem é o primeiro passo. Nosso maior dever é focar na melhoria do transporte público e nos meios de locomoção que produzem 0% de carbono. A priori, propor que a bicicleta pode ser uma das soluções para uma real mobilidade e acesso ao município, se tratando de uma cidade com as dimensões territoriais de São Paulo, parece meio absurdo, eu sei. Mas não é.

Mas imagine se tivéssemos bicicletários seguros, públicos, gratuitos e 24h operantes em todas as estações de metrô e trem. Uma malha cicloviária mais abrangente e bem conectada. Motoristas mais conscientes da fragilidade humana do ciclista etc. Esta ideia não pareceria mais tão absurda, não é mesmo? Vamos nos permitir imaginar. A partir daí poderemos projetar, materializar e dar luz aos nossos sonhos coletivos.

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Ciclocidade: as contradições de uma militância http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/23/ciclocidade-as-contradicoes-de-uma-militancia/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/23/ciclocidade-as-contradicoes-de-uma-militancia/#respond Mon, 23 Dec 2019 17:33:17 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=77 Você sente que, quanto mais próximo das políticas institucionalizadas, mais vazio de significado vai se tornando um discurso, uma ideia? Muitas vezes eu sinto isso. Passei por uma situação tão estranha recentemente que essa questão explodiu na minha cara como uma bomba e eu vou abrir meu coração pra vocês.

Esses dias recebi uma mensagem de uma conhecida de longa data para fazer uma fala em um evento da Ciclocidade. Deixe-me situar vocês. A Ciclocidade é a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo e tem algumas ações neste território de atuação. Fiquei feliz com o convite. Porém, por motivos de gostar muito de dormir até tarde no domingo, perguntei pra minha amiga Ana, da empresa e negócio social A Visionária, se ela gostaria de ir no meu lugar, pois o evento tinha uma ajuda de custo de 300 reais que seria muito bom se distribuíssem entre os nossos. Como Ana não tinha agenda para tal evento, resolvi aceitar.

O breve briefing que me foi passado: você vai falar sobre estratégias de comunicação na mobilidade.

Fique aliviada! Esse assunto estava no papo! Apesar da vergonha em falar em público, falar sobre um assunto que você domina deixa tudo muito mais fácil, não é mesmo? Várias credenciais que adquiri na minha caminhada me confortaram neste momento, como a graduação em Publicidade, a graduação em Letras, as atuações com designer no longa metragem Visionários da Quebrada, escrever esta coluna aqui na UOL semanalmente sobre mobilidade e acesso à cidade e mesmo meu trabalho diário criando conteúdo para o site Buzzfeed Brasil. Poxa vida, finalmente eu me sinto com propriedade para falar de algum assunto. Uma mulher preta bem instrumentalizada para canalizar a luta pelo direito de ir e vir com dignidade! Pois bem.

Agora chegamos na reviravolta da nossa história. Eis que recebo uma mensagem da nossa mensageira da Ciclocidade me avisando que sofri um processo de desconvidamento. Muito intrigada, pergunto o motivo e recebo a resposta: um componente da comissão afirma que sua prática diverge do seu discurso.

O choque me tomou. Para além de estar profundamente ofendida, pois eu sou uma pessoa que toma especial cuidado pra não ser uma rouba brisa de movimentos sociais, também pairou sobre mim a preocupação de estar sendo difamada. Pensei um pouquinho, fiz algumas perguntas à mensageira e descobri a figura epicentro dessa deplorável situação: uma moça que não convém abrir o nome aqui, mas que sabemos que tomou algumas decisões bastante controversas e questionáveis relacionadas à falas remuneradas e coletivo preto de bicicleta não consultados. Na época desses incidentes eu fui uma crítica contundente destas condutas antiéticas. Imagino que bateu um misto de vingança, síndrome do pequeno poder e confusões de espelhamento de defeitos na moça. Acontece.

Mas acho que o ponto mais problemático dessa situação toda é o e-mail bizarro que recebi da Diretora Geral da Ciclocidade. Achei a intenção do e-mail confusa, pois não sabemos se ali tem uma tentativa de manipulação emocional, passação de pano ou pedido de desculpas. Talvez seja tudo isso junto, não é mesmo? Neste e-mail temos frases como “O que precisamos exige além do que neste momento sua expertise e atuação estão inseridas” até “De mulher Preta pra mulher Preta”. ENFIM. Respondi questionando a imparcialidade de tudo isso e reafirmando a mentira na qual toda esta história que contei está envolvida.

Em retorno recebi um estrondoso silêncio. Considero o ápice da desonestidade e desrespeito. Uma instituição que se propõe a dialogar e construir coletivamente agindo de forma tão vil. O que nos faz voltar ao início do texto. Será que estamos fadados a ver silenciados se tornarem silenciadores ao menor acesso às vias de poder? Será que colocaremos na cesta da normalidade a chantagem emocional “de mulher preta para mulher preta”? Sinceramente, eu sou do tipo que vê o copo cheio e acredito no método “dialogar até cair” e acho que não podemos desistir umas das outras. Uma coisa eu tiro de aprendizagem de tudo isso e aproveito para citar Racionais MC: Um brinde pros guerreiros, Zé povinho, eu lamento.

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Rio Pinheiros e a velha política da cegueira http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/16/rio-pinheiros-e-a-velha-politica-da-cegueira/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/16/rio-pinheiros-e-a-velha-politica-da-cegueira/#respond Mon, 16 Dec 2019 07:00:50 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=69 Aqui em São Paulo temos uma ciclovia muito querida e icônica. Às margens do Rio Pinheiros, ela se estende ao longo de 21,5 km sem grandes ladeiras. Quando você estiver mais distraído, dará de cara com uma família de capivaras. Mas não se assuste! Elas não fazem nada, só ficam observando as bicicletas passando de um lado para o outro. Inclusive, muitas pessoas acabaram carinhosamente apelidando a ciclovia de “Capivara”. Eu poderia passar muito tempo aqui exaltando seus inúmeros pontos positivos, porém, uma questão sempre vem à mente do ciclista ao passar pela Capivara: o próprio Rio Pinheiros.

Ele acompanha a ciclovia em toda sua extensão e não nos deixa esquecer que nutrimos um gigantesco esgoto a céu aberto. Às vezes a gente até para pra pensar: em algum momento da história esse Rio já foi muito bonito. Até hoje existe um resquício dessa beleza naquela superfície turva. A bicicleta tem dessas coisas de fazer com que a gente preste atenção no caminho. Levando em consideração toda a movimentação deste ano ao redor da temática ambientalista, me parece que o paulistano fecha os olhos (e o nariz) para o velho Pinheiros.

É muito maluco pensar que suas margens já foram tomadas por uma vasta vegetação de Mata Atlântica. No início da urbanização de São Paulo, quando a cidade começou a se formar ao longo do Rio, suas águas foram muito usadas em indústrias metalúrgicas e químicas que se espalharam ao seu redor — isso lá por volta das décadas de 1950, 1960.

Sabemos que São Paulo cresceu sem planejamento algum, como a maioria das grandes metrópoles. Ou seja, não rolava aquele pensamento de despejo consciente de esgoto. Tudo era jogado nos muitos afluentes do Rio, levando toda a sujeira de uma cidade inteira, e que nunca parou de crescer, diretamente para as águas do Pinheiros.

Dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) apontam que 290 indústrias e cerca de 400 mil famílias ainda usam o Rio para descarte de dejetos.

Diversas promessas vindas da classe política já foram professadas aos quatro ventos — especialmente durante as eleições — sobre a limpeza do Rio Pinheiros. Muito dinheiro já foi investido, mas sem resultados. Nunca rolou um comprometimento efetivo com a causa. Será que se os governantes pedalassem pela Capivara, iriam se comover? Não sei. Só estou jogando a possibilidade aí, afinal de contas, a perspectiva do fim do mundo nunca esteve tão próxima.

Nunca foi tão importante apoiar a luta da juventude pelo meio ambiente. Existem várias Gretas pelo mundo e os velhos brancos no poder vão ter que ceder. Enquanto travamos esta disputa, não podemos esquecer do Rio Pinheiros.

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Três conselhos para a hora de escolher sua bike http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/09/tres-conselhos-para-a-hora-de-escolher-sua-bike/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/09/tres-conselhos-para-a-hora-de-escolher-sua-bike/#respond Mon, 09 Dec 2019 07:00:39 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=64 Quem me conhece sabe. Não podem me dar meia oportunidade que eu já entro no modo verborrágica vociferando sobre as maravilhas do estilo de vida ciclista. Já começo a fazer indicações sobre onde as pessoas se reúnem para pedalar, horários, locais. Eu acredito que quanto menos intimidante for um espaço novo, mais fácil fica de acontecer um envolvimento real e intenso. Pedalar é uma atividade física que exige, para além do seu corpo, uma ferramenta, que é a bicicleta. Parece simples, mas bicicleta não é tudo igual, e isso pode confundir a cabeça de quem está começando. São tantas opções que realmente fica difícil entender qual é a bicicleta correta para a sua vida, sua rotina, suas intenções etc. Por isso, resolvi compilar em três dicas simples o básico que precisa ser analisado no momento da sua escolha.

  • Leve em consideração a sua altura no momento da compra: esta é uma dica muito importante. Pedalar uma bicicleta menor ou maior do que a indicada para o seu tamanho pode trazer muitas consequências, como dores e também desequilíbrio. Existem tabelas com as medidas na internet caso você queira ter essa informação mais rapidamente. Porém, o mais indicado mesmo é procurar um profissional que faça bike fit. O bike fit é o processo de colher as medidas do ciclista e calibrar as distâncias da bike para se adequar melhor ao corpo, potencializando a eficácia da pedalada. Morre uma grana pra fazer bike fit, então não é algo que eu considere super acessível. No momento de compra da minha própria bike eu apenas sinalizei a minha altura e torci pra dar tudo certo, e parece que deu.
  • Reflita com bastante transparência se você tem na cabeça o uso que você vai dar para a sua bicicleta: você pretende usar para se locomover diariamente ou só aos finais de semana? Você pretende fazer trilhas ou é para uso urbano? Sua intenção é fazer pedaladas longas ou para quebrar um galho e aumentar a velocidade nas distâncias curtas? Todas estas questões fazem diferença na hora de escolher uma bicicleta.
  • Estude as diferentes modalidades de bicicleta: bicicleta não é tudo igual, e escolher a bicicleta adequada para o uso que você vai dar a ela é fundamental. MTB (Mountain Bike) é uma bicicleta bastante confortável e conta com suspensão e marchas, porém é uma bicicleta pesada e com uma manutenção mais complexa, por ter muitos componentes. Também existem bicicletas single speed (sem marchas) que podem ser usadas de duas formas: pinhão solto ou fixo. São bicicletas bastante leves e práticas em contexto de cidade. Contudo, não possuem a ajuda das marchas para subir ladeiras, contando exclusivamente com a força que a pessoa vai desenvolvendo ao pedalar uma bicicleta deste gênero.

Depois de dar atenção para estes três pontos, dê uma pesquisada geral, fale com algumas pessoas que você conhece que pedalam e também veja alguns vídeos sobre os temas. Depois, é só correr pro abraço. Ops, pro pedal!

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Qual é a regra número um do ciclismo urbano? http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/qual-e-a-regra-numero-um-do-ciclismo-urbano/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/qual-e-a-regra-numero-um-do-ciclismo-urbano/#respond Mon, 02 Dec 2019 07:00:16 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=49 Pedalar pela cidade é uma ideia bastante amedrontadora para muitos. São inúmeras variáveis a se pesar quando se começa nessa empreitada urbana, que de início pode ser muito solitária, só você e essa selva de pedra motorizada. Porém, mesmo quando não está pedalando com um grupo específico, você vai notar algumas coisas.

Os ciclistas sempre reparam na presença de outro ciclista, como se estivéssemos cuidando um do outro. Pode reparar: sempre buscamos encontrar o olhar do outro e nos conectamos quando achamos, mesmo que por uma fração de segundos. É uma sensação bem engraçada e, no meu coração ao menos, dá um quentinho. No final das contas, a condição humana é sobre conexões.

Algumas ruas de São Paulo são mais agitadas que outras e exigem um nível maior de presença e atenção. A Rua Butantã, ao lado do Largo da Batata, é uma delas. Em uma das vezes que eu precisei passar por ela, havia um ciclista pedalando a minha frente. Quando ele me viu, olhou bem para o meu rosto e gritou: “Vamos por aqui, essa fila está mais tranquila!”. Pedalamos juntos até o fim daquela via. Parece um gesto bobo, mas não é. Eu me senti muito mais segura pedalando em dupla ali naquela situação. Foi de um companheirismo muito grande com uma pessoa que ele não conhecia.

Cumprimentos, acenos e afins são comuns dentre os que optaram por esta via incomum de se transportar dentro de São Paulo. Isso é se reconhecer dentro das mesmas dificuldades e se encontrar dentro de um grande prazer que é movimentar o corpo nesses tempos em que o sedentarismo é uma epidemia global.

Quando estiver na rua e avistar outro ser pedalante, procure demonstrar, se houver oportunidade, que você o avistou. São várias as questões envolvidas, desde empatia e incentivo até segurança. Sem falar que a comunidade de bicicleta de São Paulo, mesmo sendo bem vasta, ainda é relativamente pequena, e você vai acabar fazendo várias amizades e reconhecer muita gente nestes processos de cruzar com as pessoas por aí afora. E ‘vamo’ combinar que, se tem uma coisa que anda faltando nesses tempos, é o mínimo de olho no olho. Essa é a regra número um!

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O que aprendi parada no trânsito na praia? http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/23/o-que-aprendi-parada-no-transito-na-praia/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/23/o-que-aprendi-parada-no-transito-na-praia/#respond Sat, 23 Nov 2019 07:00:33 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=52 Ultimamente minha forma principal de locomoção tem sido a bicicleta. A ida e volta do trabalho é em cima das duas rodas e, se quero ir pra algum lugar de noite e pretendo beber, costumo ir de ônibus/metrô ou pedir algum carro em aplicativos. Ou seja, tenho mantido uma relação distante com carros, pois realmente acredito que não faça mais sentido incorporar essa mentalidade no meu dia a dia. 

Outra coisa que fazia muito tempo também que eu não fazia era ir à praia. Eu estava realmente chateada de ainda não ter visto o mar este ano, então neste último feriado me esforcei bastante para descer para Ubatuba.

Fomos eu, meu boyzinho e outras amizades. A estrada tava tão gostosa que eu nem estava lembrando por que eu sou tão antipática à ideia de carros, até que pegamos um trânsito no final da serra que aumentou em no mínimo 1 hora a nossa viagem. Foi bastante irritante, mas entendo. Era feriado, e o brasileiro tem vivido um ano difícil. Todos só queremos desestressar.

Chegando lá, fiquei feliz demais de estar andando só de biquíni e chinelo para tudo que é canto. Passamos a maior parte do dia na praia do Tenório tostando no sol.

Em algum momento resolvemos trocar de praia, afinal só tínhamos aquele dia para aproveitar e queríamos ver o máximo possível das belas praias do litoral norte.

Primeira situação desagradável ao trocar de praia: assim que colocamos nosso carro na vaga, um grupo de pessoas veio nos cobrar sobre estarem guardando a vaga para um outro carro de amigos deles que estava por chegar. Depois de breve discussão, deixamos a cena e descemos pra praia do Lamberto. A praia não deixava nada a desejar. 

Completamente paradisíaca! Porém, quando voltamos para o carro, já com aquela fome e cansaço característicos de um dia inteiro de praia, reparamos que um dos nossos pneus havia sido esvaziado pelo grupo de pessoas que estavam se vingando pela vaga ocupada. 

Eu tentei encarar da forma mais positiva possível. Aproveitei e tentei aprender como se trocava um pneu de carro, afinal nunca sabemos quando vamos encarar uma situação dessas apenas com nossas próprias habilidades para contar. Depois de resolvida essa situação, seguimos nosso caminho. Mas você acha que foi fácil chegar até nosso destino? Pois é, não foi.

Depois da segunda ou terceira curva na estrada, no horário das 17h mais ou menos, descobri que existe um enorme engarrafamento por conta do fim do horário da incidência do sol nas praias. Para atravessar 4 km demoramos inacreditáveis 2 horas! Ficamos 2 horas dentro de um carro para atravessar um espaço curto porque somos, como sociedade, extremamente viciados em nos locomover de carro. Durante essas 2 horas, observei bem o acostamento. Muitas bicicletas estilo caiçara passaram. Que elas chegaram bem antes de todos nós é uma grande certeza. Enquanto estávamos parados naquele enorme trânsito paulistano feito em sua maioria por paulistanos em plena Ubatuba, os moradores passavam tranquilos sentindo aquele ventinho de maresia nos cabelos. Nosso pensamento carrocrata é tão individualista que, ao pensarmos apenas no conforto próprio, acabamos presos em longas filas na crença de que estamos sendo de alguma forma ágeis ou mais civilizados em algum nível.

Se tem uma coisa que eu aprendi nesse último feriado que viagem pra mim só funciona com as passagens do busão compradas e bicicleta no porta malas.

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Mete a mão na sua bike, mina! http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/18/mete-a-mao-na-sua-bike-mina/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/18/mete-a-mao-na-sua-bike-mina/#respond Mon, 18 Nov 2019 07:00:18 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=46 Não é engraçado como damos conselhos que não seguimos? Eu me considero uma mulher de sorte, pois meu pneu costuma furar bem pouco. Em uma dessas ocasiões eu estava bem perto de casa. Ao ouvir aquele barulho característico da borracha mole no chão, desmontei e empurrei algumas quadras. No dia seguinte, troquei meu primeiro pneu, seguindo as instruções do meu namorado, também conhecido como Sabota. Situação complexa. Não vou dizer que fiquei confortável em executar uma tarefa que me era completamente estranha com um homem me dizendo “faça isso” e “agora faça aquilo”, pois não fiquei. Porém, o desconforto serviu para fazer algumas reflexões sobre o tema.

Sabemos que mulheres não são socializadas para desbravarem o mundo das engrenagens e parafusos. Quando eu era criança, pedi para o meu pai uma boneca chamada Papa Papinha, que comia e cagava rs. O único brinquedo mentalmente estimulante que eu tive foi um kit de química que eu absolutamente amava de paixão. Já deu pra entender, né? Eu cresci achando que naturalmente não sabia desmontar, remontar ou reconfigurar nada. Qualquer problema que eu tinha eu pedia para o meu pai arrumar pra mim. Nunca me propunha a entender como eu poderia arrumar meu próprio brinquedo, e não por que eu nasci naturalmente sem essa habilidade, mas por que todos os comerciais, imagens e mensagens que me impactaram me diziam que eu não era feita para aquela atividade, e sim que eu tinha que cuidar, zelar, entender, alimentar, etc. 

Claro que, ao me ajudar a trocar meu pneu, Sabota tinha boas intenções e queria me ensinar, e eu me esforcei ao máximo para entender todas as informações que ele estava me trazendo. O pneu furado foi enfim solucionado. Todavia, fica o questionamento: quando deixaremos de ser salvas por homens?

Eu me sinto muito lisonjeada de conhecer e frequentar a bicicletaria Las Magrelas. É um loja e espaço de mecânica de bicicletas construído em suma por mulheres. Ao contrário da maioria dos lugares em São Paulo, a Las Magrelas não é um lugar para se passar; é um lugar para se ficar. Lá eu me encontro com a Dani e a Talita e passo horas rindo, recebendo conselhos amorosos e aprendendo a lidar melhor com a minha bicicleta. Foi lá que aprendi coisas das mais básicas até as mais elaboradas. Fico sentada num banquinho branco de plástico vendo essas mulheres maravilhosas desmontarem e desbravarem o mundo masculino das peças. Lembro de comprar minha bicicleta e literalmente não saber nem calibrar o pneu. Quem me ensinou a usar a bomba sem quebrar o pininho foi a Dani. Foi uma mulher. Quem me ensinou a identificar gambiarras nas funilarias das bicicletas foi a Talita. A pessoa que me acompanhou a primeira vez que, a muito custo, eu subi a Teodoro Sampaio foi a Luisa Peixe, uma amizade que eu conheci dentro desta bicicletaria. Sabemos que os conhecimentos passados de mulher para mulher criam outro valor, afinal, quando descobrimos o poder das alianças femininas, fazemos uma rachadura importante na armadura do patriarcado. Sem falar na confiança e segurança que você sente em pisar em solo masculino com uma guia mulher. Sei que Talita e Dani não vão me enganar ou me dizer que preciso de uma bicicleta nova quando meu problema é resolvido com uma bela revisão, e muito menos me assediar. Com elas, me sinto segura.

Esses dias eu coloquei minha insegurança em resolver furo no pneu sem a ajuda de ninguém, e elas me aconselharam a desmontar minha bike sozinha em casa para ver se eu realmente aprendi. Tive uma pequena aversão a essa ideia, mas sei que esta aversão é resquício daquela criança que brincava só com bebês de plástico. Precisamos com força superar as mulheres castradas que a socialização feminina cria. Só o que eu quero é estar envolta de mulheres que admiro e também me tornar exemplo para as outras. Seguimos juntas.

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Pedalar é essencialmente um exercício anti-autoritário http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/11/pedalar-e-essencialmente-um-exercicio-anti-autoritario/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/11/pedalar-e-essencialmente-um-exercicio-anti-autoritario/#respond Mon, 11 Nov 2019 07:00:49 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=42 Eu nunca entendi direito o porque as pessoas eram tão fascinadas por esportes. Durante a adolescência eu nunca fui uma grande fã de educação física. Me lembro como se fosse hoje que na escola que eu estudava tinha duas quadras, uma grande e uma pequena. O professor separava a turma entre meninos e meninas. Vocês conseguem adivinhar qual destes grupos ficavam com a quadra pequena? Exatamente! As meninas. O professor, que não conseguia se dividir em dois, dava preferência para a formação dos meninos, obviamente. A nós, restava uma bola solta sem instruções. Todas as meninas corriam ao mesmo tempo em cima da bola e as cotoveladas comiam soltas. Admito que criei uma grande aversão a esportes desde então. Sempre esquecia de propósito a roupa de educação física para ser dispensada e poder me livrar desta situação. 

Quando superei um pouco minha aversão à prática de esportes e comecei a pedalar, percebi que o encanto vem das relações que você cria por conta dos jogos de comunidade inseridos dentro das dinâmicas do esporte. Nossa sociedade se encontra num momento de isolamento tão brutal que a necessidade de comunicação interpessoal que é exigida ao se envolver num esporte em grupo é realmente muito sedutora. Somos carentes, e quando estamos na rua, pedalando em conjunto, a prioridade é cuidarmos uns dos outros. Este é um processo que cria laços fortes, se você permitir que esses laços sejam criados. 

Hoje eu escrevo esse texto com um aperto no coração. Dentro do nosso atual contexto político, o que eu mais acho que faz sentido é que, dentro de qualquer organização que estivermos inseridos, precisamos necessariamente exercer o espírito democrático. A democracia é mais lenta, cheia de obstáculos e processinhos. Essa é a dor de cabeça que precisamos ter enquanto seres dispostos a multiplicar as vias democráticas por aí. Não é um caminho fácil, mas é o caminho necessário. 

No dia de hoje, eu rompi com um grupo de bicicleta do qual eu era muito próxima, e isso mexeu comigo. Acho muito louco como colocamos individualmente bandeiras anti autoritárias sobre nós e só o que sabemos reproduzir são estruturas hierarquizadas. Eu vi um grupo romper ao meio por coisas tão banais. Não sabíamos a diferença entre briga e debate, entre vontade individual e vontade coletiva, entre ganho pessoal e ganho comum. Até antes disse, observei pessoas colocando que processos horizontais só podiam resultar numa bagunça generalizada, sem nem ao menos tentar. Hoje eu consigo entender melhor como as democracias caem. Elas são muito complexas. Quando não se está na disposição, elas sempre serão boicotadas pelas figuras não dispostas e pelos seus líderes autoritários. 

Hoje vou dormir com uma desesperança pairando sobre mim. Um misto de ansiedade e impotência. Mas acredito que amanhã o dia vai amanhecer ensolarado. Um belo dia para se dar uma pedalada.

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Manual de tratamento ao ciclista http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/04/manual-de-tratamento-ao-ciclista/ http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/2019/11/04/manual-de-tratamento-ao-ciclista/#respond Mon, 04 Nov 2019 13:02:38 +0000 http://miloaraujo.blogosfera.uol.com.br/?p=39 Sabemos que segundas são dias de muita agitação. Todo mundo está correndo para “tirar o atraso do final de semana”. Uma grande desvalorização do sagrado descanso que dura curtos dois dias. 

Hoje é uma segunda-feira, e levei uma das maiores finas (quando o carro passa quase encostando no ciclista. Normalmente este recurso é usado com fins “disciplinares” por parte dos motoristas) Eu estava pedalando pelo meio da faixa, sendo esta a forma menos perigosa de seguir em vias mais agitadas, e muito que, de repente, eu estava dividindo ¼ da via com um carro raivoso.

Claro, sentimos muita raiva. Queremos xingar, perseguir, quebrar retrovisor. Tudo isso! É difícil ter a vida ameaçada assim por motivos tão banais. Porém vamos tentar fazer uma melhor análise para não cairmos completamente no caos urbano.

Eu acredito que existem muitas razões diferentes e concomitantes para chegarmos a este tipo de comportamento. Até porque esta conduta sofre alterações se o ciclista for uma mulher, um homem, se for não-branco, e por aí vai. Numa perspectiva um pouco mais otimista, também temos fatores educacionais. Quando eu tirei minha carta de motorista, fui uma exímia aluna (acreditem, eu sou uma ótima motorista) e, mesmo prestando atenção nas aulas, não fui muito impactada pelo rápido enfoque que é dado para a questão de ciclistas em via. Vale lembrar que no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) a bicicleta é designada como veículo.

Tudo isto posto, resolvi de forma bastante prática trazer algumas dicas que colhi dentro da comunidade de pedaladores de bicicleta sobre como lidar com uma pessoa em cima de duas rodas na frente, do lado ou atrás do seu carro.

  • Procurar realmente ler o CTB.
  • Cuidar do espaço do ciclista. O indicado é manter uma distância de 1,5 m do ciclista ao fazer ultrapassagens. 
  • Diminuir a velocidade ao ultrapassar o ciclista.
  • O motorista deve entender que o ciclista tem tanto direito de ocupar a via quanto carros.
  • Não ficar buzinando enquanto o ciclista está subindo uma ladeira. É muito desestabilizador.
  • Dar preferência na via.
  • Não assustar o ciclista. A bicicleta também tem pontos cegos.
  • O ciclista deve procurar sempre ocupar o centro da faixa, como se “fosse um carro”, para evitar ser pressionado lateralmente por carros.
  • Agradecer, mesmo quando for óbvio ou esperado.
  • O ciclista deve olhar no olho e só agir quando tiver certeza que o motorista o avistou.
  • Tentar ao máximo ser visto.
  • Carros e ciclistas devem sempre sinalizar suas ações.
  • Não parar com carros em cima de ciclofaixas.
  • Se abster de distrações, como atender o celular.

Gostaria de agradecer muito todas as pessoas que me enviaram sugestões de dicas para montarmos este singelo manual de boa convivência entre carros e bikes. Vamos seguir construindo juntas e juntos uma cidade para geral.

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